Augusto António Bico


 (1856-1934)


(Sem Título)

 

Você lamenta eu lamento

Qual de nós tem mais razão

Você gastou sem proveito

Eu perdi dinheiro e patrão.

 

Você grita e com certeza

Que tem razão para gritar

Gastou, tornou a gastar

E perdeu toda a despesa

Mas falando com franqueza

Os engenheiros de talento

Têm tido desmoronamento

Em obras de tal qualidade

Por causa da profundidade

Você lamenta eu lamento.

 

Não podia adivinhar

Se o terreno era firme

É um estudo sublime

Onde não posso chegar

 

Aprendi a trabalhar

Trabalho por precisão

É de onde me vem o pão

Com que sustento os meus filhos

Mas vim de lá sem cadilhos

Qual de nós tem mais razão

 

O Sr. Tavares com certeza

Que já tem perdido mais

Como tem muitos cabedais

Não diminui a riqueza

Essa grande despesa

Que diz fazer por meu respeito

Quando há qualquer desfeito

Recai sempre sobre o pequeno

Por causa do seu terreno

Você gastou sem proveito.

 

Quem ficou pior fui eu

Fui o mais prejudicado

Vim com o corpo bem ralado

Sem um real de meu

Tudo ali me escarneceu

Até o mais rude ganhão

A minha aptidão

Só ali ficou perdida

E se não  perdi a vida

Perdi dinheiro e patrão.



Sem título

 

Alcácer és ultrajada

Gente pacífica e ordeira

Seu sono foi despertado

Pela troupe financeira.

 

A 7 do décimo primeiro

Foi Alcácer invadido

Por um grupo banido

À pergunta de dinheiro

Assaltou o taberneiro

Foi o comércio assaltado

Dizem por não ter fechado

Suas portas às nove horas

Já não alcanças melhoras

Alcácer és ultrajada.

 

Quem visse aquela matilha

Correndo de porta em porta

Acharia a lei bem torta

Que imitava uma quadrilha

Aqui ganfo além te pilha

Foi uma grande chinfrineira

Afoufando a algibeira

Para levarem as massas

Sujeita estas desgraças

Gente pacifica e ordeira

 

 

Mas no dia imediato

Todo o comércio fechou

Sobre o caso protestou

Contra este desacato

Além do povo sensato

Ficou um pouco alvoroçado

Como curioso foi levado

Onde estavam os mainantes

Gritando para tratantes

Seu sono foi despertado.

 

Chegou o nosso magistrado

Também a alta nobreza

Para servir de defesa

Ao tal grupo encarcerado

O povo com desagrado

Ou talvez por brincadeira

Foi largando a sua asneira

Mas D. Joan delas vinha

Quis dançar nas trapecinhas

Pela troupe financeira.



Sem título

 

Todo o homem que se casa

Devia casar muita vez

Com pequenos intervalos

De quinze dias a um mês

 

Ainda se calha bem

Com mulher de boa raça

Ainda bem o mês se passa

E razão de queixa não tem

Mas se por desgraça lhe vem

Para casa uma má rês

Está a desgraça com o maltês

Fica um homem bem servido

Para não ser aborrecido

Devia casar muita vez

 

O homem que não casou

Toda a vida é um morgado

Anda bem platinado

E o dinheiro não lhe faltou

Em qualquer parte ficou

As noites fora de casa

Com o padeiro não se atrasa

Ninguém tem que lhe dizer

Mas já não faz o que quer

Todo o homem que se casa

 

Se a mulher com quem casa

Tem cabelinho na venta

Só o diabo a aguenta

Anda tudo numa rasa

Se o homem quer fazer vaza

E lhe arruma alguns estalos

Nem uma parelha de cavalos

Dão coices como ela dá

Só casando eu disse já

Com pequenos intervalos

 

Que glória não seria

Para o homem que casasse

Saber quando o mês passasse

O enterro lhe pagaria

Eu má cara não faria

Pagando por muita vez

Num trimestre eram três

Que as levava o diabo

Ainda um homem era trincado

De quinze dias a um mês.


 

Sem Título

  

O rico vive com tudo,

O pobre vive sem nada

Ao rico sempre se deva,

Ao pobre tudo se paga.

 

Mais vale o cair em graça

Que vale o ser engraçado

Ainda que pouco faça

Sempre é elogiado

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