Maria Natália Bico (Taizinha)
(1921-2019)
De Maria Natália
para Irene Catarino
Alcácer do Sal, Carnaval de 1946
Senhora D. Irene
Muito bom é o Carnaval
Numa carta como esta
Diz-se bem ou diz-se mal.
Mas esta é carta de amigo
Por isso mal não dirá
Só lhe peço por favor
Que responda. Veja lá!
Mas que quer você então?
Perguntará a senhora
Não se canse a adivinhar
Que eu digo já sem demora.
Segui as máscaras de ontem
E sem que ninguém me visse
Vou dar uma opinião
Embora não ma pedisse.
Começo pelo Varandas
Que era o chefe desta vez
Dele só tenho a dizer
Mas “que pagode chinês”.
Da Lubélia que direi
Tão elegante e airosa
Se o senhor B… a visse
Chamava-lhe mariposa.
A Branca que não se zangue
Porque isto é sem ofensa
Mas de cabra a cabreiro
Não acho grande diferença!
Falar do Bispo para quê?
Só se fosse por enguiço
Não o vistam de mulher
Que não tem jeito p’ra isso.
A Elódia é um ponto
Não estava mal, vamos lá
Merecia que lhe dissessem
Ò Anacleto anda cá!...
Da Natália quem diria
Que não teria preguiça
Era mesmo a Teresa Alves
Vestida para ir à missa.
A doida da Conceição
Se não arranja juízo
Tem que ir acabar o curso
P´ra escola de Vale de Guizo.
Maria Augusta formosa
Belo par com a Laurinha
Que parecia salvo seja
A filha do Batatinha.
Diga lá à Beatriz
Que não seja abespinhada
Pois não é nada bonito
E passa por malcriada.
O Belmiro estava bem
Vestido dessa maneira
Só lhe faltavam as palmas
P´ra parecer uma palmeira.
A mulher do Mário Bispo
Também seguia na dança
Madalena arrependida
Cara de Dona Constança.
O Bengalinha também
Seguia atrás do grupo
Dando às vezes gargalhadas
Do saudoso Joaquim Maluco.
Guardei o Gama p’ra o fim
P’ra dizer mal. Olaré.
Pois vestido de criança
É tal e qual um bebé.
Ponham-lhe touca de renda
Uma chucha e babeiros
E fica aquilo que é
Um menino de cueiros…
E ponto final, já basta
Que eu não quero dar massada
Nem que a Dona Irene
Comigo fique zangada.
Até para o ano que vem
Saúdinha, saúdinha
Passem todos muito bem
Saudades do ……
Panelinha
Ser
Professora
Minha senhora
como é que se faz isto?
Minha senhora
veja se está bem feito!
Minha senhora
ensine-me esta conta…
Minha senhora
mas eu não tenho jeito…
E é assim todo o dia
que as boquinhas mimosas
das minhas criancinhas
fazem de mim o guia
que as leva sequiosas
à fonte do saber
onde eu, pobre de mim
também quero beber.
Ao meu pai - Num Natal
Disseste um dia e eu dou-te razão
Que uma palavra vale mais que o ouro
Palavra dita com o coração
È bem mais rica que o maior tesouro.
Pois nesta noite em que dar é dado
Eu dou apenas aquilo que tenho
Uns pobres versos que meu pai, coitado
Irá achar, bem sei, pobres de engenho.
Pai muito amigo, do coração eleito
Que pelo muito que a todos nós tens dado
E pelo muito que a todos nós tens feito
Que a nossa ternura bem te faça
De te ter sempre a nosso lado
O Divino Jesus conceda a Graça.
Ao meu
pai-Resposta a um convite
A bodas e baptizado
Diz o Zé e tem razão
Não vás sem ser convidado…
Ora eu fui convidada
Para assistir ao jantar
Que um certo cozinheiro
Quis oferecer com esmero…
Mas esqueceu que a ementa
A poucos vai agradar
Senão p’lo gosto, p’lo cheiro
Que lhe há-de dar o tempero…
Li e reli o menu
E como sou doentinha
D’apetite delicado
Resolvi não aceitar…
Se ao menos fosse peru
Ou guisado de galinha
Rabo de porco grelhado
Lombo do mesmo animal
Mão de vaca com ervilha
Chispe de porco e feijão
Não seria a sua filha
Que lhe diria que não…
Agora mistelas dessas
Recuso mas agradeço
Assim manda a educação.
Já que gosta, bom proveito
Apetite até mais não
Depois já sabe, as sentinas
São sempre por bom caminho
Não ficam longe, a direito.
De Palmela, venha o vinho
Comam até se acabar
E com boa digestão
Feliz boda, bom jantar…
Ao meu pai
- 1964
Escuta pai, a nossa casa agora
Está triste, está vazia. Não é já o que era
Era uma casa alegre, acolhedora
Mudou-se em triste inverno, a primavera.
Escuta pai. Até a nossa gente
Não é a mesma. Está tudo mudado
Quebrou-se o nó que nos unia de repente
E foi cada um para seu lado.
Tão cedo pai partiste da nossa companhia
Tão cedo que, por vezes, eu julgo estar sonhando
E que este pesadelo é pura fantasia.
A vida continua pai, o tempo vai passando
Só não passa esta tua saudade, esta agonia
Que fere fundo e deixa o coração sangrando.
Para um
concurso da Rádio Comercial, onde ganhei uma menção honrosa
Das duas enviadas, a premiada foi esta.
Nos bolsos do meu marido
Uma carteira vazia
E um porta-chaves partido…
Vou já mandar para os Céus
Um porta-chaves catita
Que o S. Pedro, Santo Deus
Traz a chave numa guita…
Feitos
depois de jantar no Restaurante Regalinho, em Vouzela.
Temos o caldo entornado
Se eu não for ao Regalinho
P’ra comer cabrito assado.
P’ra comer cabrito assado
E uma boa feijoada
Se eu não for ao Regalinho
À noite estou amuada….
À Inês - Abril de 1993
Com muito amor e carinho
Arranjei este almocinho
P’ra minha neta papar
São tantas as iguarias
Que levei dias e dias
Para as poder cozinhar…
Desejo ardentemente
Que ao meteres o teu dente
Te saiba bem a valer
Confesso que me esforcei
Eu fiz aquilo que sei
Pois melhor não sei fazer.
E nesta longa viagem
Metida na carruagem
Abandonada e sozinha…
Eu desejo à minha querida
Que durante toda a vida
Se lembre de avózinha.
À Mirinha
Eu que sou poetisa
à moda antiga
lembrei-me de criar
hoje
um poema modernista
para festejar a data
duma menina
que nasceu
cheia de lata
pois levou-me o filho
que era todo o meu
enlevo
Mas eu não me importo
porque ela afinal
não é tão má
assim
e pode ser que um dia
se lembre
de mim
das minhas maluqueiras
e ainda se ria
da minha poesia
e das minhas asneiras.
O tempo passa
já vais estando
numa velhota
“rabugenta e feiota”
Mas tem paciência
que a vida é assim
e é para te não rires
de mim
e Deus queira
que ainda sejas mais
sinal de que vives
E que a vida seja tudo
aquilo que tu quiseres
não peças é demais
para seres atendida
nesta e na outra vida.
Por mim o meu desejo
è que sejas feliz
e que tenhas muitos
mas muitos afectos
pois eu te quero muito
porque acima
de tudo
deste-me dois lindos netos.
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